sábado, 7 de julho de 2012

12. Cérebro invertido

A expectativa para a cirurgia que se aproximava era grande. A torcida de todos também! E esta torcida às vezes vinha através da indicação de mais médicos, mais opiniões sobre meu caso.

Minha cunhada ficou sabendo de um excelente neurocirurgião. Especialista, renomado, exercia sua funções no hospital mais reconhecido de São Paulo. Gosto muito de minha cunhada, gosto muito quando ela fala sobre saúde, liguei para marcar a consulta. O valor, como esperado, era altíssimo. E, claro, o médico não trabalhava com meu plano de saúde.

Como eu tinha urgência, a cirurgia estava marcada para alguns dias depois, consegui a consulta no dia seguinte. Lógico, pedi para minha cunhada ir comigo, eu estava muito fragilizado emocionalmente, queria ter alguém para me ajudar a fazer as perguntas e principalmente para analisar as respostas.

Com quase duas horas de atraso - o médico teve uma emergência com um paciente - a consulta começou de forma bem semelhante às outras. Falei de meus sintomas, mostrei minhas ressonâncias e o médico fez os exames de praxe (aperte minha mão, encoste a ponta do dedo no nariz, ande em linha reta...). Disparei então a pergunta que eu queria fazer desde o início:

– Doutor, já estive em várias consultas, foram os mais variados especialistas, parece que tenho dois caminhos a seguir: instalar uma válvula para desvio do fluxo de líquor ou fazer uma ventriculostomia. O que o senhor acha?

Interessante a resposta dele:

Se eu mostrasse sua ressonância para uma pessoa de minha equipe que provavelmente seria o responsável por sua cirurgia, ele optaria certamente pela ventriculostomia. Mas se eu chamasse sua atenção para o quarto ventrículo, que está também com excesso de líquor, talvez ele optasse pela válvula. Seria também minha decisão.

A partir deste ponto a consulta começou a ficar interessante, justamente porque continuei a perguntar:

– Mas doutor, um médico sugeriu fortemente a ventriculostomia. Eu também prefiro este procedimento, seria um processo totalmente fisiológico, não estaria instalando um corpo estranho em meu cérebro!

A reação dele foi inacreditável:

– Você é um daqueles pacientes que têm mania de entender tudo. Não é assim que funciona, eu sou o médico, o paciente deve seguir minha indicação e pronto. É a mesma coisa deste computador aqui (ele aponta para o equipamento - que estava desligado!!!), eu não entendo como ele funciona, mas o utilizo. Não preciso entender, preciso apenas usá-lo! Pacientes deveriam agir assim também, o médico fala e eles aceitam!

Na hora nem pensei em comentar quantos diagnósticos absurdos eu já tinha ouvido até aquele momento, que se eu seguisse os conselhos dos 'especialistas' médicos talvez os resultados não fossem tão bons assim.

Mas o médico não parou. Do alto de sua experiência, quem sabe de sua arrogância, disse:

– Se você fizer um furo no terceiro ventrículo, o liquor que está no quarto ventrículo vai voltar para o terceiro. Haverá uma inversão de fluxo, você terá uma inversão no cérebro! Já parou para pensar nisso?


Fluxo normal do líquor

Nem preciso dizer o quão assustado, melhor dizendo, apavorado eu fiquei. Como assim, inversão de cérebro? Minha cunhada ficou sem palavras. Não sabíamos mais o que fazer. Resolvemos então ir embora!

Na saída o médico ainda reforçou, falando em tom suave:

– Opte pelo procedimento mais seguro!

Era a válvula, claro. Mas eu não queria a válvula, o médico em quem em mais confiei sugeriu a ventriculostomia. Eu QUERIA a ventriculostomia!

No dia seguinte liga meu irmão:

– Falei de seu caso com minha terapeuta. Ela trabalha com métodos alternativos, ela afirma que pode curá-lo!

Pronto, fiquei ainda mais perdido! Mas chega por enquanto, continuo no próximo artigo com minhas decisões e novas consultas, a última. Não, a penúltima! Não, a antepenúltima! É, eu estava mesmo desesperado!


4 comentários:

  1. Caro Fernando, há dois meses meu filho nasceu com Hidrocefalia e fez a cirurgia de ventriculostomia, que foi realizada com sucesso pelo Dr. Luiz Otáveo Madalozzo, em Curitiba. Com a graça de Deus ele está muito bem, crescendo bonito e sadio, o que percebi é que muitos neuros simplesmente não sabem fazer esta cirurgia, por ser nova no Brasil, principalmente em recém nascidos, consultei vários médicos antes, que praticamente me aterrorizavam quando a está cirurgia. Particularmente eu desconfio muito de métodos alternativos, mas ouça seu coração, Tudo vai dar certo, que DEUS te abençoe.

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    1. Agradeço muito seu comentário. E fico ainda mais feliz pela saúde de seu filho. Realmente, há muitos médicos que evitam procedimentos simplesmente por não conhecê-los. Até aí, talvez dê até para perdoá-los, afinal o medo e a insegurança são sentimentos bastante humanos. O que não é perdoável - em nenhuma circunstância - é o terrorismo que eles fazem. De novo, parabéns pela saúde do filhão... Apenas um último comentário: como você conseguiu descobrir meu blog?

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  2. Oi, eu encontrei seu blog na comunidade hidrocefalia,meu filho tem 8 meses e tem hidrocefalia e esquizencefalia, colocou a válvula com 9 dias de vida. Eu fico com medo das sequelas que ele pode ter no futuro, principalmente pelo qie os médicos falam pra gente. Mas prefiro pensar que td vai dar certo, acreditar em Deus e pensar somente nos casos que tiveram sucesso. E acima de tudo amá-lo do jeito que ele é.

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    1. Daniel, por algum motivo meu blog não avisou quando você postou esta mensagem, só fiquei sabendo hoje por acaso, quando estava navegando pelas páginas. Como está seu filho?

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